C.E.A.P






Nadia A. Bossa e Patricia
L’ Bossa de Campos,
responsáveis pelo C.E.A.P

 
Nadia Aparecida Bossa aborda
a nova ciência de um ponto
de vista histórico e teórico


ANTÔNIO JOAQUIM SEVERINO
Especial para o Estado

O fato de as ciências humanas terem sido concebidas, por força de sua filiação positivista, à imagem e semelhança das ciências naturais levou-as a introjetarem que seu critério de demarcação científica deveria ser aquele do paradigma firmado pela física moderna.
O estatuto de cientificidade de qualquer saber exigiria a matematização da abordagem do objeto a ser encarado sempre como pura fenomenalidade. Em decorrência disso, as ciências humanas, por muito tempo, buscaram forçar essa objetivação do sujeito sob rígidos esquemas de uma abordagem experimental-matemática da realidade do homem.

Mas se o problema já era complexo com a relação à configuração teórica da fenomenalidade humana, configuração essa meramente explicativa, ele se tornou ainda mais intrincado ao entrar em jogo também a dimensão da prática. É que o homem não se apresenta somente como objeto que se pode conhecer teoricamente: é sobretudo um sujeito que se autoconstitui pela prática.

A interveniência do agir específico do homem, instaurado pela sua prática, essencialmente intencional, compromete a transparência do estatuto de cientificidade dos sabores em que ela se acha envolvida. Assim, o campo epistemológico das ciências relacionadas à educação perde toda a sua univocidade e limpidez.

Por essa razão, novos desafios se impuseram àquelas que lidam com essas ciências, sendo levados então a novas perspectivas de abordagem, rompendo os estreitos limites da epistemologia positivista.

Sem dúvida a, percepção desses problemas, a insatisfação com os esquemas até então hegemônicos, bem como a crítica às verdades vigentes, são sintomas mais que salutares de vitalidade epistemológica e aval de crescimento inovador.

Exemplo desta vitalidade é o livro de Nádia Bossa, A Psicopedagogia no Brasil - Contribuições a Partir da Prática: a autora assumiu, com competência, criatividade e espírito crítico, o desafio de enfrentar a questão da natureza e da identidade da psicopedagogia, campo de saber teórico-prático, sempre meio constrangido entre os reducionismos teoricistas da psicologia e aqueles praticantes da pedagogia.

Na sua pesquisa, originariamente apresentada como dissertação de mestrado em Psicologia da Educação na PUC/SP, a autora parte da condição de praticidade desse campo de saber, bem como da total multidisciplinariedade de seu enfoque.

A psicopedagogia é tomada como um corpo de conhecimentos, construído com vistas a encontrar soluções para os problemas da aprendizagem, numa aplicação que, além de clínica, se quer também preventiva. Área recente, multidisciplinar, é eminentemente prática, sem deixar de ser, simultaneamente, campo de investigação e, ainda, saber científico.

Sua perspectiva de abordagem é simultaneamente histórica e teórica: faz um balanço histórico da constituição da psicopedagogia e uma análise teórica de sua significação. Assim, após explicitar os fundamentos da psicopedagogia, retoma sua formação no Brasil e na Argentina e estuda a formação especializada do psicopedagogo no Brasil. Descreve, em seguida, a configuração prática psicopedagógica na escola e na clínica, caracterizando, ao final, a natureza do tratamento psicopedagógico.

A autora tem plena consciência de que a psicopedagogia não é um saber "único e acabado", mas um saber aberto, em devir, que se constitui a partir de sua própria eficiência enquanto processo prático.

Mas é também "área recente de conhecimento que recorre a contribuições da psicologia, da psicanálise, da pedagogia, da filosofia, da lingüística da neurologia", permitindo "uma apreensão mais eficaz do processo de aprendizagem, apreensão que possibilita ao profissional identificar elementos facilitadores e comprometedores desse processo". Mas a tessitura desse corpo teórico se dá na Psicopedagogia fundamentalmente como área de aplicação.

Obs.: Pesquisa Foi Apresentada Como Tese de Mestrado

Antônio Joaquim Severino é filósofo e professor da Feusp

  Fonte: Jornal, "O Estado de São Paulo"
  Caderno II - 17/07/1994


SERVIÇO
A Psicopedagogia no Brasil - Contribuições a Partir da Prática,
de Nadia Aparecida Bossa,
Editora Artes Médicas, 112 páginas
 



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